
Ainda tenho guardados nítidamente na minha memória os meus primeiros contactos com o Skimming. O cenário de fundo era a Praia Verde, em Montegordo, sem rampa nem ondas, ideal para as primeiras quedas. Eu e o meu primo, companheiro de longa data nestas andanças, corríamos a praia de um lado ao outro com uma tábua de madeira. E sim, era mais o tempo que a tinhamos nas mãos do que nos pés. No entanto, em cada fracção de segundo que me via deslizando sobre a água, o tempo parava e só recomeçava quando as dores da queda se faziam sentir. De seguida levantava-me, sacudia a areia entranhada na pele e voltava a correr, a deslizar, e a cair! O "vício", como muitos me dizem, já estava lá e não havia nada a fazer.
Partilho estes momentos porque acho que devo uma explicação a quem, não praticando, observa perplexo "aqueles loucos que caiem na areia e vão às ondas sem medo": vejo o Skimming como um meio para uma reflexão do Homem quanto à sua posição neste mundo, num confronto bipolar entre os elementos terra/mar. O skimmer encontra-se na fronteira entre o mundo humano e o universo de Neptuno, onde sonhos e mitos sobrevivem ao longo de milhares de anos. É preciso pisar o risco, passar a fronteira para alcançar novos olhares sobre o mundo, e o Skimming ajuda-me nessa caminhada.
Confronto-me diariamente com designações como Skimming, Skimboard, Skim, sem haver um claro consenso sobre a denominação deste nosso "vício". Quanto a mim, chamava-lhe "a arte de deslizar sobre a água".